
Quando se fala em desenvolvimento sustentável na Amazônia, o debate costuma oscilar entre dois polos já conhecidos: conservar ou explorar. Entre eles, porém, cresce um terceiro caminho — menos retórico e mais operacional — que aposta na inovação como infraestrutura invisível para destravar negócios, renda e impacto social mantendo a floresta em pé. É nesse espaço que atuam as aceleradoras de negócios de impacto socioambiental, com destaque para iniciativas estruturadas no próprio território amazônico, como a AMAZ, coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam).
Esse tipo de organização atua como ponte entre realidades que historicamente não dialogam: comunidades produtoras, tecnologia, mercado e capital. A Amazônia carrega gargalos estruturais conhecidos — logística precária, baixa bancarização, insegurança fundiária, dificuldade de acesso a crédito e ausência de instrumentos financeiros adequados ao ciclo das cadeias da sociobiodiversidade. Nesse contexto, modelos tradicionais de financiamento tendem a falhar não por falta de recursos, mas por inadequação ao território.
Segundo a líder de operações de novos negócios do Idesam e gestora da AMAZ, Gabriela Souza, a composição do fundo disponibilizado pela AMAZ é estratégica para atingir negócios que atuam em setores e modelos que destoam do tradicional pela sua lógica financeira. Para isso, a empresa opera com um fundo híbrido de R$ 25 milhões, estruturado a partir da lógica de blended finance, que combina capital filantrópico e privado.
Na prática, isso permite reduzir o risco em etapas críticas dos negócios de impacto, especialmente na fase chamada de “pré-competitiva”, geralmente ignorada pelo sistema financeiro convencional. “Negócios de impacto, em sua grande maioria, incorporam etapas pré-competitivas para garantir a oferta, como assistência técnica produtiva, transferência de tecnologias, antecipação de pagamentos e mecanismos de rastreabilidade, que encarecem o custo da matéria-prima”, explica Gabriela.
O papel do recurso filantrópico, segundo ela, é viabilizar a competitividade desses modelos, permitindo que o capital privado entre em condições mais alinhadas à realidade local. “O capital privado, por si só, ainda não apresenta apetite suficiente para custear essa etapa. A estrutura híbrida reduz a pressão por retorno imediato e possibilita trabalhar diferentes instrumentos, de apoios não reembolsáveis a crédito e participação societária”, afirma.
“O recurso filantrópico busca viabilizar a competitividade desses modelos. Fortalecer, através de suporte técnico contínuo, um modelo de negócio que seja sustentável financeiramente, acesse mercados adequados e gere retornos econômicos a empreendedores, parceiros, fornecedores e investidores”, completa.
Essa engenharia financeira se traduz em algo central para o desenvolvimento regional: previsibilidade. Ao combinar suporte técnico contínuo, capital adequado ao estágio do negócio e acesso a mercados, as aceleradoras ajudam a transformar iniciativas locais — muitas vezes informais ou fragilizadas — em operações capazes de gerar renda, pagar melhor a base produtiva e permanecer no território.
Cases de sucesso em 5 anos
A Amaz completou cinco anos de atividade em 2025 com números superlativos: avaliou mais de 500 startups potenciais, acelerou 52 negócios, investiu em 29 empresas e mantém 16 ativas no portfólio. Somente em 2024, beneficiou 1.959 famílias e 45 organizações sociais e os negócios acelerados pela Amaz geraram R$ 4 milhões de pagamentos a parceiros na Amazônia brasileira.

Safra de açaí em um ativo digital com tokenização
O caso da tokenização do açaí, em Igarapé-Miri (PA), ilustra esse movimento. Desenvolvida por dois negócios do portfólio da AMAZ, Tribo Superfoods e ForestiFi, a iniciativa aplicou tecnologia blockchain para transformar uma safra de açaí em um ativo digital. “Essa operação materializa a tese de destravar gargalos estruturais da bioeconomia com inovação tecnológica e social, conectando a base produtiva ao capital, mercado e governança”, destaca Gabriela.
A cadeia do açaí, uma das mais emblemáticas da Amazônia, movimenta cerca de R$ 3 bilhões por ano e envolve aproximadamente 150 mil famílias só no Pará. Ainda assim, convive com problemas recorrentes: perdas no transporte, baixa rastreabilidade, dificuldade de acesso a capital de giro e relações comerciais desfavoráveis para quem está na base. A tokenização, nesse cenário, permite que o recurso chegue antes da safra, com regras claras de uso e acompanhamento, reduzindo a dependência de atravessadores e fortalecendo a governança da cadeia.
Outro elemento-chave desse ecossistema é a cooperação entre startups, em contraste com a lógica tradicional de competição. “Quando as startups passam a cooperar, a cadeia deixa de ser tratada como um problema que uma empresa tenta resolver sozinha e passa a ser trabalhada como um sistema”, afirma Gabriela. No caso do açaí, enquanto a Tribo organiza a base produtiva e o acesso ao mercado, a ForestiFi oferece a infraestrutura financeira e tecnológica que garante liquidez e previsibilidade. O resultado é redução de risco, ganho de escala e distribuição mais equilibrada de valor.
Apoio às políticas públicas
Após cinco anos de atuação, a experiência acumulada pela AMAZ também chega ao campo das políticas públicas. A participação da organização na construção do Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas levou à mesa um diagnóstico recorrente: o entrave não é falta de iniciativa, mas ausência de instrumentos adequados. “Defendemos políticas que combinem soluções de curto prazo, que não excluam quem já produz, com caminhos estruturais para enfrentar questões como regularização fundiária, garantias e acesso ao crédito”, pontua Gabriela.
O desafio agora é alinhar o ritmo das políticas ao ritmo da inovação que já acontece na ponta. Isso passa por redesenhar critérios de rigor para a realidade amazônica, criar mecanismos de garantia mais compatíveis com o território e fomentar parcerias formais entre setor público, privado e organizações locais. Mais do que discursos, trata-se de construir evidências: operações que funcionam, geram resultados rastreáveis e mostram que a floresta em pé pode, sim, ser um ativo econômico competitivo.

Líder de operações de novos negócios do Idesam e gestora da AMAZ, Gabriela Souza
Cooperação, tecnologia e território: o novo desenho da inovação amazônica
Um dos movimentos mais silenciosos — e estratégicos — do ecossistema de inovação na Amazônia é a mudança de lógica: da competição isolada para a cooperação estruturada. Em um território marcado por cadeias produtivas complexas e desafios pré-competitivos profundos, tentar “dominar” toda a cadeia tornou-se não apenas inviável, mas contraproducente.
A experiência da AMAZ mostra que a inovação ganha tração quando diferentes atores assumem papéis complementares. “Modelos que tentam verticalizar tudo esbarram na falta de recursos financeiros, técnicos e de tempo para endereçar os gargalos existentes”, observa Gabriela Souza. Ao trabalhar em rede, startups conseguem reduzir custos, compartilhar riscos e acelerar aprendizados.
Essa abordagem também orienta programas como o PPBio, que apoia projetos em múltiplos pontos das cadeias produtivas — da colheita e segurança do trabalho à gestão, qualidade, novos produtos e aproveitamento de resíduos. Quando essas frentes avançam de forma coordenada, a inovação deixa de ser pontual e passa a ser uma capacidade acumulada do território.
O impacto vai além do negócio individual. A cooperação cria condições mais sólidas para atrair investimentos, estabelecer parcerias e estruturar mercados que valorizem origem, qualidade e rastreabilidade. Para o consumidor, isso se traduz em produtos mais transparentes. Para o produtor, em relações comerciais mais estáveis. Para o investidor, em redução de incertezas.
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Olhando para frente, cadeias como castanha-do-brasil, cacau e óleos vegetais já apresentam maturidade para escalar com inovação e rastreabilidade. Ao mesmo tempo, ganham espaço frentes tecnológicas ligadas a bioinsumos e biofármacos, conectando biodiversidade a setores intensivos em conhecimento. O critério central, segundo a AMAZ, é garantir que valor, tecnologia e decisão permaneçam conectados ao território.
Nesse novo desenho, aceleradoras deixam de ser apenas apoiadoras de startups e passam a atuar como peças-chave de uma infraestrutura de desenvolvimento regional. Uma infraestrutura que não aparece em mapas ou obras, mas que sustenta o futuro econômico da Amazônia com mais inclusão, inteligência e pé no chão.
Reconhecimento internacional
A Amaz Aceleradora de impacto, coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam), figura como única iniciativa brasileira entre os finalistas do GAEA (Giving to Amplify Earth Action) Awards 2026, prêmio internacional do Fórum Econômico Mundial, que reconhece soluções inovadoras para os desafios climáticos globais.

