
O fantasma da crise econômica que marcou o segundo governo de Dilma Rousseff volta a rondar o Palácio do Planalto. Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil corre o risco de repetir um período de recessão, endividamento crescente e perda de confiança na economia. O alerta é do ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, que vê na expansão dos gastos públicos e na resistência a reformas fiscais uma combinação perigosa para os próximos anos.
Em entrevista ao programa Stock Pickers, repercutida nesta quinta-feira (29) pelo InfoMoney, Loyola traçou um cenário preocupante para o novo mandato de Lula. Segundo ele, a política econômica adotada até agora, agravada pelas despesas e promessas do período eleitoral, deixou o país em uma situação de elevada vulnerabilidade.
“Vejo um risco de a gente repetir o segundo governo da Dilma, em que a economia acabou se afundando. Nós tivemos um dos maiores períodos recessivos da história contemporânea do Brasil”, afirmou.
A comparação remete à recessão de 2015 e 2016, quando o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro acumulou dois anos consecutivos de retração, acompanhados por forte deterioração do mercado de trabalho e das contas públicas.
O alerta não significa que o Brasil esteja condenado a repetir aquele cenário. Mas aponta para a possibilidade de que decisões econômicas semelhantes, em um ambiente de maior endividamento e restrições fiscais, produzam consequências igualmente graves.
O risco de repetir os erros
Na avaliação de Loyola, o governo Lula ampliou significativamente os gastos públicos e o endividamento durante o mandato. A campanha eleitoral acrescentou novas promessas de despesas, tornando ainda mais difícil a tarefa de equilibrar as contas a partir de 2027.
“Eu acho que a situação macroeconômica é das mais delicadas. Porque o governo Lula até agora expandiu muito o gasto público e a dívida pública”, declarou.
O ex-presidente do BC considera inevitável que o próximo governo enfrente uma situação fiscal particularmente difícil. A expansão da dívida em relação ao PIB aumenta a percepção de risco entre investidores, pressiona as condições de financiamento do país e limita a capacidade de crescimento sustentado.
“Não há como fugir de uma situação fiscal bastante difícil no próximo ano e nos próximos”, advertiu.
O problema é que o governo terá de administrar essa situação enquanto busca cumprir compromissos eleitorais e preservar programas sociais, sem demonstrar, até aqui, disposição suficiente para enfrentar mudanças estruturais nas despesas públicas, segundo a avaliação do economista.
A combinação pode produzir um impasse semelhante ao observado no período que antecedeu a crise do governo Dilma: dificuldade de recuperar a confiança, aumento das pressões fiscais e perda de dinamismo econômico.
Mais impostos, menos crescimento?
Um dos pontos centrais da crítica de Loyola é a preferência do governo por medidas destinadas a elevar a arrecadação, em vez de promover uma revisão mais profunda das despesas.
O economista cita iniciativas tributárias, como mudanças no IOF e propostas de revisão de isenções de investimentos, como exemplos de uma estratégia que pode comprometer a atividade econômica.
A lógica é que o aumento da carga tributária reduz recursos disponíveis para consumo e investimento. Dependendo da intensidade dessas medidas e das condições da economia, a desaceleração resultante pode comprometer parte da arrecadação adicional pretendida.
“Está muito estabelecido na teoria econômica e na prática de vários países que ajuste fiscal via receita não é eficiente e traz impacto negativo sobre a atividade econômica e, portanto, sobre a própria arrecadação em algum momento, enquanto o corte de gastos tende a ser muito mais eficaz”, afirmou.
A discussão ganha relevância porque o governo também enfrenta limitações políticas para promover reformas estruturais. Mudanças nas despesas obrigatórias, nas regras previdenciárias e nos mecanismos de indexação do orçamento dependem de negociações complexas com o Congresso Nacional.
Sem essas alterações, o risco é que o ajuste continue concentrado na arrecadação, preservando as pressões sobre o endividamento e limitando o espaço para investimentos.
Um cenário externo mais difícil
Há outro elemento que amplia a preocupação do ex-presidente do Banco Central: o ambiente internacional.
Juros elevados nas principais economias e tensões geopolíticas tornam mais difícil a atração de investimentos e reduzem a margem de manobra de países que enfrentam problemas fiscais.
Internamente, o governo também convive com uma contradição. Enquanto amplia gastos para estimular a atividade econômica, o Banco Central mantém uma política monetária restritiva para controlar a inflação.
Segundo Loyola, o Executivo praticamente esgotou seu arsenal de estímulos, enquanto os juros elevados funcionam como um freio ao crescimento.
“Eu vejo uma perspectiva de baixo crescimento para a economia brasileira nos próximos anos, com juros ainda elevados”, afirmou.
Esse cenário pode dificultar a expansão do crédito, reduzir o ritmo dos investimentos privados e comprometer a geração de empregos.
O custo político de adiar o ajuste
A advertência de Loyola coloca o novo mandato de Lula diante de uma escolha que envolve economia e política.
O presidente chega fortalecido pela vitória eleitoral, mas terá de decidir se utiliza esse capital político para negociar medidas de contenção de despesas ou se mantém a estratégia de financiar compromissos por meio de maior arrecadação e endividamento.
A experiência do segundo governo Dilma demonstra que a deterioração das expectativas econômicas pode cobrar um preço elevado. A crise daquele período teve causas múltiplas, incluindo desequilíbrios internos, perda de confiança e choques econômicos. Por isso, não é possível atribuí-la exclusivamente à expansão dos gastos públicos.
Ainda assim, a comparação feita por Loyola funciona como advertência sobre os riscos de ignorar restrições fiscais.
O Brasil de 2027 não é o mesmo de 2015. As condições institucionais, monetárias e internacionais são diferentes. Mas a trajetória da dívida pública e a dificuldade política de conter despesas tornam legítima a preocupação com uma nova fase de crescimento fraco e juros elevados.
O risco de um resultado ainda pior que o observado no governo Dilma não foi apresentado por Loyola como previsão. Trata-se de uma possibilidade que dependeria de um agravamento substancial das condições econômicas e da ausência de respostas eficazes do governo.
Para Lula, a questão central será evitar que a história se repita. A reeleição garantiu a continuidade do projeto político, mas não resolveu os desequilíbrios econômicos acumulados.
Fonte: InfoMoney, reportagem de Victória Anhesini, publicada em 29 de outubro de 2026, com base em entrevista de Gustavo Loyola ao programa Stock Pickers.





