
Os primeiros movimentos políticos após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva indicam que o presidente está mais disposto a reafirmar a agenda que o levou à vitória do que a construir uma alternativa para enfrentar os desequilíbrios econômicos do país. Em vez de apresentar sinais claros de contenção de despesas, recuperação da confiança dos investidores e compromisso com o crescimento sustentável, Lula reapareceu neste domingo (1º) defendendo a possibilidade de ampliar programas sociais e até criar novos benefícios.
Em vídeo publicado nas redes sociais, uma semana depois do segundo turno, o presidente garantiu que nenhum programa social será extinto no próximo mandato. A manifestação teve como objetivo declarado desmentir informações falsas sobre o encerramento de benefícios como o Bolsa Família. Mas o conteúdo também reforçou uma escolha política: preservar e eventualmente ampliar a estrutura de transferências sociais, sem apresentar, naquele momento, uma contrapartida para o financiamento dessas iniciativas.
O problema não está na existência dos programas sociais. Instrumentos como o Bolsa Família cumprem uma função relevante na proteção das famílias de baixa renda. A questão é saber até que ponto o governo pretende transformar essa proteção em uma ponte para a autonomia econômica ou continuar apostando na ampliação de benefícios como uma de suas principais marcas políticas.
Um país não pode medir o sucesso de sua política social apenas pelo número de pessoas atendidas. O indicador mais importante deveria ser a capacidade de criar condições para que essas famílias conquistem renda, emprego e independência financeira. Quando a expansão dos benefícios se torna uma prioridade permanente, sem uma estratégia igualmente consistente de crescimento econômico, abre-se espaço para uma relação de dependência que também pode produzir dividendos eleitorais.
A resistência ao ajuste fiscal
O posicionamento de Lula não surgiu isoladamente. Na quinta-feira (29), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, já havia deixado clara a resistência de uma parcela importante do governo a medidas de contenção de gastos.
Em publicação nas redes sociais, Boulos afirmou que o chamado “tesouraço” havia sido derrotado nas urnas e rejeitou a possibilidade de um ajuste fiscal baseado em cortes nas políticas sociais. Posteriormente, em entrevista à Folha de S.Paulo, classificou como chantagem do mercado a pressão por medidas de austeridade.
Boulos defende que o equilíbrio das contas públicas seja buscado por meio da redução de privilégios, revisão de benefícios tributários, supersalários e emendas parlamentares. São discussões legítimas, mas que exigem propostas concretas, estimativas de economia e capacidade de negociação com o Congresso.
A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) foi ainda mais longe. Em manifestação nas redes sociais, defendeu a revogação do arcabouço fiscal e criticou as pressões por cortes de despesas. Para ela, a mobilização que garantiu a vitória eleitoral é incompatível com medidas fiscalistas.
A convergência dessas manifestações revela uma disputa que ultrapassa a defesa dos programas sociais. Parte da base governista parece interpretar o resultado das urnas como uma autorização para afastar restrições fiscais e ampliar a intervenção do Estado na economia.
Essa interpretação contém um risco evidente. Vencer uma eleição confere legitimidade para governar, mas não elimina os limites impostos pelo Orçamento, pelo endividamento público e pela necessidade de preservar a confiança de quem produz, investe e gera empregos.
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O custo econômico da aposta
O ambiente econômico exige respostas que vão além da retórica eleitoral. A primeira semana depois da eleição foi marcada por preocupações no mercado financeiro, enquanto o debate sobre a trajetória da dívida pública e a sustentabilidade das despesas ganhou força.
Nesse cenário, esperava-se que o presidente apresentasse alguma sinalização capaz de reduzir incertezas. Não necessariamente um programa de cortes indiscriminados, mas uma demonstração de que o novo governo reconhece a necessidade de conciliar responsabilidade social e equilíbrio fiscal.
O que se viu, até agora, foi a reafirmação de compromissos políticos sem esclarecimentos suficientes sobre como serão financiados.
A conta, entretanto, não desaparece porque o governo decide ignorá-la no discurso. Quando o Estado amplia despesas sem receitas permanentes ou compensações adequadas, aumentam as pressões sobre o endividamento e sobre as expectativas econômicas. O resultado pode aparecer em juros elevados, menor disposição para investir e dificuldades adicionais para a geração de empregos.
Há uma contradição nesse modelo. O governo que afirma defender os trabalhadores pode acabar prejudicando justamente aqueles que dependem de uma economia dinâmica para encontrar emprego, abrir um negócio ou melhorar a renda.
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O confronto como método político
Os sinais de continuidade da polarização também merecem atenção. Lula venceu uma eleição disputada e terá diante de si o desafio de governar um país dividido, com interesses econômicos, sociais e políticos distintos.
Entretanto, o discurso adotado neste início de período pós-eleitoral indica pouca disposição para abandonar a lógica de confronto que marcou a campanha.
Ao voltar a responsabilizar adversários pela disseminação de informações falsas, Lula reafirmou a divisão política que mobilizou sua base eleitoral. O debate sobre a regulação das redes sociais acrescenta outra fonte de tensão, especialmente diante das preocupações com liberdade de expressão, critérios de moderação e limites da atuação estatal.
O combate à desinformação é necessário. Mas qualquer iniciativa de regulação precisa oferecer garantias efetivas contra abusos e preservar o direito ao contraditório. Em um ambiente polarizado, a ausência dessas garantias pode ampliar a desconfiança entre governo e oposição.
O presidente tem o direito de defender suas propostas e de responder às críticas. O que se espera de quem recebeu um novo mandato, porém, é capacidade de construir consensos mínimos em torno de problemas nacionais que não pertencem exclusivamente à esquerda ou à direita.
Governar para além da própria base
O Brasil precisa de políticas sociais eficientes, mas também de contas públicas sustentáveis, segurança jurídica, investimentos e crescimento econômico. Esses objetivos não são incompatíveis. Exigem, contudo, escolhas difíceis e disposição para contrariar interesses, inclusive dentro da própria base governista.
Lula parece iniciar o caminho inverso. Ao reforçar a expansão de benefícios e permitir que aliados tratem a austeridade como uma ameaça política, transmite a impressão de que pretende prolongar a disputa eleitoral para dentro do próximo mandato.
O risco é transformar a administração pública em instrumento permanente de mobilização de apoiadores, deixando em segundo plano a construção de uma agenda capaz de atender ao conjunto da sociedade.
O desafio de um quarto mandato deveria ser justamente o de reduzir a dependência de milhões de brasileiros em relação às transferências governamentais, por meio de empregos, produtividade e renda. Ampliar o número de beneficiários pode ser necessário em determinados contextos, mas jamais deveria ser confundido com um projeto de desenvolvimento.
O verdadeiro êxito de uma política social não está em manter indefinidamente mais pessoas sob a proteção do Estado, mas em criar condições para que um número crescente delas consiga caminhar com as próprias pernas.
Se os primeiros sinais se confirmarem, Lula poderá começar seu novo mandato repetindo uma fórmula conhecida: mais intervenção estatal, mais confrontação política e pouca disposição para enfrentar as reformas que poderiam sustentar o crescimento brasileiro.
A eleição terminou. O país precisa de um governo. Não de uma campanha permanente.
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